Portas de Portugal

Portas fechadas
Não movem moinhos
Portas abertas
Destampam abismos
Fernando Pessoa
Assoprou pra mim
Que todas pessoas
São assim, assim

Mudam as vontades
A vida é mudança
Eu não moro em casa
Onde eu moro não importa
Camões vem ao meu lado
Salvou seu livro a nado
Mas eu não nado nada
Agora Inês é morta

Navegar é preciso
Ver o desconhecido
O caminho das Índias
Passa pelo Brasil
A Terra caiu na rede
Ao alcance de um clique
Mas meu sítio na rede
Tomou chá de sumiço

Viver é impreciso
Os mapas são antigos
As bússolas viciadas
Os astros decaídos
Gastei sola em Angola
Em Cuba e Machu Picchu
Noves fora, viola,
A vida é o que se aposta

Portas fechadas
Portas abertas
Portas de Portugal

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Notícias do front

Para Paulo Bentancur, em memória

Deitado no quarto,
olho o dia morrer na janela.
O dia que, se nada trouxe, tudo leva.

Pouco a pouco, mergulho,
junto às coisas, na penumbra.
Mas, vivente insone,
salto da cama
e acendo a luz.

Sentado à mesa, escrevo.
E morro lúcido.

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Homo sapiens

O que eu queria mesmo
É que as pessoas
Fossem mais burras

Burras como a generosidade
Que dá sem esperar
Nada em troca

Burras como o amor
Que não calcula o risco
E se joga

Burras como a esperança
Que sabe que vai perder
E nem se toca

Burras como a felicidade
Que leva safanão porretada eletrochoque
E ainda volta

Burras como a arte
Que celebra a vida,
Mesmo torta

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Pensão da tia Lucena

Na estrada esburacada de barro vermelho
as fachadas das casas têm cor de poeira
Pretinhos nus se banham nas margens do riacho
no calor abafado do final da tarde
Retorno ao quarto da pensão da tia Lucena
enquanto o sol desaba, vermelho e pobre, no poente
Sem palavras pra minha miséria, eu canto
as canções mais doídas como se fossem minhas
E o coração pisado conhece a alegria

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Ostra

O poeta é um pouco a ostra
Forma a pérola sob
maremotos

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Noite tempestuosa

Cai, chuva, cai sobre a terra viúva.
Abranda o crispamento dos relâmpagos
cortando o céu a seco em zigue-zague
e o atroar irritado dos trovões.

Vem surdinar nos vidros da janela
com teus dedos de fêmea um baticum
como o que ecoa ao longe nas quebradas
chamando o carnaval: turuntuntum.

Cai, chuva, cai sobre as ruas de chumbo.

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Tubarões

Tubarões comem camarão
De vinho são mata-borrão

Suas vidas, suas cinturas,
um acúmulo de gorduras

Têm uma consciência de esmolas
Sua arte é um colchão de molas

Fazem sauna dentro dos ternos
Chocam almas com vida eterna

Têm estimulantes pra tudo
Mas o mais forte é o lucro

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Medonho

O louco da cidade
É um espelho às avessas
Em que ninguém se quer ver.

O louco da cidade
É um eterno Judas
Em Sábado de Aleluia.

O louco da cidade
É uma placa afixada
Nas fronteiras do caos.

O louco da cidade
É o sal da sanidade.

Minha cidade tinha o seu.
Medonho, por nome.
Ao vê-lo passar, as crianças
Faziam roda a sua volta,
E lhe imitavam os trejeitos,
E lhe faziam caretas,
E lhe gritavam, soberbas:
– Medonho, sai do meu sonho!
Ele sorria, banguela,
E seguia seu caminho
Em conversa com Deus.

Perambulava pelas ruas,
Magro como um vira-latas.
Nunca não pedia nada.
Catava as sobras no lixo.
Se alguém lhe alcançava um prato,
Aceitava de bom grado,
Mas dispensava a colher.
Raspava o prato com a mão,
E o devolvia, agradecido,
De banguela arreganhada.

Dormia pelas calçadas
Com a roupa velha e o boné
Enfiado na cabeça.
Só no calor mais extremo
Tomava banho na fonte
Com a roupa colada ao corpo.
Depois sentava na grama,
Tirava a calça, a camisa,
E secava ao sol, junto às roupas,
Com o boné sobre o colo.

Até hoje, desconfio
Que a cidade em que nasci
Não tinha um louco a preceito.
Toda vez que eu avistava
Medonho subir a rua,
A conversar com as valetas
E com os postes de luz,
Lembrava de São Francisco
(O santo que me perdoe)
A saudar o ribeirinho,
O irmão Sol e a irmã Lua.

No meio da gente toda
Correndo atrás de dinheiro,
Medonho nada queria,
E ria à toa, feliz,
Insanamente feliz,
A dividir os farelos
De seu pão com as formigas.
Medonho, sai do meu sonho,
Ou cometo a heresia
De atirar tudo pra cima
E ir no encalço de Deus.

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Borboletas no asfalto

Sou do tempo em que os carros falavam
Um bocado sobre seus donos.
Bravos Fuscas, elegantes Opalas,
Operosas Kombis, Jipes rebeldes,
Imponentes Landaus, Corcéis versáteis,
Democráticos Chevettes, Karmann Guias excêntricos,
Mavericks futuristas, Gordinis minimalistas
Desfilavam amarelos, azuis e vermelhos
Pelas ruas calçadas de paralelepípedos.

Os caprichosos paralelepípedos
Sepultou-os aos poucos o liso asfalto
Por onde ora transitam sedans clonados,
Todos pretos, brancos e pardos.
Alguém ainda dirige o carro
Atrás dos vidros indevassáveis?
O computador de bordo refuta
Por impertinente, a pergunta,
Enquanto simula rotas de fuga
Ao engarrafamento onipresente.

Um ciclista passa, rente,
Espantando as borboletas
Tatuadas sobre o asfalto.

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Poemas que escolhi para as crianças

Poeminha meu na antologia da Ruth Rocha, intitulada Poemas que escolhi para as crianças.

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