Anelise bonita e caprichosa não sabia
onde guardar a beleza da aurora
a graça dos gatinhos recém-nascidos
o amor-perfeito que lhe dei
Anelise não tinha coração
O coração de Anelise era um caderno de recordações
de capa dura e lustrosa e páginas coloridas
Nele recolhia as lembranças dos colegas de aula
as amizades e os miúdos namoros
No final do ano, iam para o fundo do baú e lá ficavam
E lá ficaram para sempre meus versos adolescentes
que comparavam sua face sardenta a um céu cheio de estrelas
Ora, direis, um céu sardento. Certo perdeste o senso
Mas eu ardia em febre a imaginar as sardas eclipsadas pelas vestes
Meu coração plebeu queria pegar sua mão, beijar sua boca, morrer por ela
Anelise traçava letras perfeitas no caderno de caligrafia