Minha boêmia

Eu caminhava, as mãos nos bolsos desgastados;
Também meu paletó fazia-se ideal:
Ia sob o céu, Musa! e era o amante leal!
Ah que esplêndido amor o que então foi sonhado!

Meus únicos calções tinham um grande furo.
– Pequeno Polegar que entre rimas discursa,
Via minha taverna às margens da Grande Ursa.
E os astros – todos meus – sussurravam no escuro!

Sentado eu escutava, à beira dos caminhos,
As meigas noites de setembro; e tinha o vinho
Do orvalho sobre a fronte – ó tônico perfeito!

E ali rimas tecia entre vultos fantásticos,
Com a minha lira – meu sapato e seus elásticos
Que fazia vibrar, tendo um pé contra o peito!

Artur Rimbaud (1854-1891), com tradução de Jorge Wanderley.
Rimbaud pinta o retrato do poeta moderno, que desceu do pedestal, perdeu a auréola que tradicionalmente o distinguia dos demais, e agora tornou-se um andarilho e um vagabundo.

Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe um comentário