A dor me pôs na sombra, na penumbra,
porque a dor traz a noite quando irrompe,
e onde estou não se encontra um outro homem
mortificado como eu sou – nenhum.
Dor com dor e mais dor: meu desjejum.
Dor meu repouso e dor os meus esforços.
Cão que late a meu pé e não me abandona,
sempre fiel ao dono, cão importuno.
Cardos, dores me põem sua coroa.
Cardos, dores me açulam seus leopardos
e partem um por um todos meus ossos.
Já não pode o meu corpo resistir,
entre dores e cardos sufocado.
Que lento sacrifício é nossa vida!
Soneto de Miguel Hernández (1910-1942) – tradução de Paulo Becker.