Sou do tempo em que os carros falavam
Um bocado sobre seus donos.
Bravos Fuscas, elegantes Opalas,
Operosas Kombis, Jipes rebeldes,
Imponentes Landaus, Corcéis versáteis,
Democráticos Chevettes, Karmann Guias excêntricos,
Mavericks futuristas, Gordinis minimalistas
Desfilavam amarelos, azuis e vermelhos
Pelas ruas calçadas de paralelepípedos.
Os caprichosos paralelepípedos
Sepultou-os aos poucos o liso asfalto
Por onde ora transitam sedans clonados,
Todos pretos, brancos e pardos.
Alguém ainda dirige o carro
Atrás dos vidros indevassáveis?
O computador de bordo refuta
Por impertinente, a pergunta,
Enquanto simula rotas de fuga
Ao engarrafamento onipresente.
Um ciclista passa, rente,
Espantando as borboletas
Tatuadas sobre o asfalto.