Aprendendo a fazer um soneto

Gregório de Matos Guerra (1636 – 1696) nos dá uma aula sobre como compor um soneto. Parece coisa de poeta modernista, mas é lá do século XVII. No caso em questão, um sujeito ilustre havia solicitado que o poeta fizesse um soneto em seu gabo, ou seja, em seu louvor, como era costume na época, e Gregório se saiu com essa. 

Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

 Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.

 

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Longada

Seguimos andando
sobre a terra e sob o sol
eu e minha sombra

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Barbeação

Manhã cedo, a navalha
no balé habitual
entre cara e carótida.
De espectador, no espelho,
o rival poupa o aplauso
para um final apoteótico.

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Caras-metades

A mulher do coronel
tem cara de quartel

A mulher do carcereiro
tem cara de chaveiro

A mulher do agiota
tem cara de cofre

A mulher do visionário
tem cara de calvário

A mulher do bispo
tem cara de noviço

A mulher do psiquiatra
tem cara de psicopata

A mulher do mordomo
tem cara de dono

A mulher do coveiro
tem cara de enterro

 A mulher do médico
tem cara de remédio

A mulher do motorista
tem cara de autopista

A mulher do alfaiate
tem cara de fraque

A mulher do açougueiro
tem cara de cordeiro

A mulher do carrasco
tem cara de cadafalso

A mulher do farsante
tem cara de meliante

A mulher do policial
tem cara de oficial

A mulher do professor
tem cara de retroprojetor

A mulher do escrivão
tem cara de mata-borrão

A mulher do pintor de retratos
tem cara de paisagem

A mulher do deputado
tem cara de eleitor enganado

A mulher do ferreiro
tem cara de espeto

A mulher do palhaço
tem cara de palha de aço

A mulher do capeta
tem cara de corneta

A mulher que é minha
tem coroa de rainha.

              Paulo Becker

 

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Mãos

Ver com as mãos
é arte das crianças
e dos amantes.

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Leituras

 

CANÇÃO DA 15ª JORNADA NACIONAL DE LITERATURA

 LEITURAS
(Paulo Becker, Humberto Gessinger)

Leio com os olhos
Um haicai do Leminski
Que recitei outrora
Só pra te ver sorrir

Leio com a língua
O sabor do alfajor
O mel da melancia
E o sal do teu suor

Com o meu nariz
Leio aromas da estação
Os cheiros mais sutis
Que teu corpo exala

Leio com os olhos
Boca e ouvidos
Pele e nariz
Todos os sentidos
Leio comovido
Todos os sentidos
Da vida

Com os meus ouvidos
Leio acordes e ruídos
A chuva em surdina
Tua palavra clara

Leio com as mãos
Feito criança a tocar
Tudo que o olho vê
Leio teu corpo em braile

Leio com os olhos
Boca e ouvidos
Pele e nariz
Todos os sentidos
Leio comovido
Todos os sentidos
Da vida

 

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Tania Rösing

Tania Mariza Kuchenbecker Rösing
O nome, um decassílabo perfeito
A pessoa, uma nobre alma guerreira
Dom Quixote de saias, incansável,
Dá combate aos moinhos da ignorância,
Armada só com a força das palavras
– Um, dois, três, quatro, cinco, mil,
Queremos mais leitores no Brasil

Paulo Becker

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Colecionador de pedras, de Sérgio Vaz

O livro Colecionador de pedras reúne textos que falam do cotidiano da periferia de São Paulo, da vida dos homens, das mulheres e das crianças “das casas simples / e almas bravias”. Os poemas de Sérgio Vaz são engajados, sem ser panfletários, e não fazem rodeios, pelo contrário, espetam o dedo nas muitas feridas de uma sociedade excludente, uma sociedade que, com a mesma rapidez com que gera riquezas, cria as “tropas dos famintos”. E, dessas tristes tropas, se destaca a figura dolorosa dos mais frágeis entre os frágeis, as crianças que vivem na rua, sem passado nem futuro, ou são exploradas no trabalho infantil como escravas, e se aposentam “aos onze (…) por invalidez”. Vaz empunha a poesia como arma, disposto a “esfaquear os tiranos / com o aço” das suas palavras. Entretanto, também não poupa a multidão dos “covardes / que habitam na senzala / do silêncio”, e nada fazem para transformar a realidade injusta. Sem ser maniqueísta, sem vender utopias baratas, a poesia de Vaz é social no melhor sentido da palavra. E, educadamente, o poeta avisa aos detentores do poder: “As pedras não falam, / mas quebram vidraças.”

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Balés, de Bruna Beber

  1. AUTOR

Bruna Beber nasceu no Rio de Janeiro, em 1984. É autora de A fila sem fim dos demônios descontentes, de 2006; Balés, de 2009; e Rapapés & apupos, de 2012. Tem poemas publicados na Alemanha, Argentina, Espanha, Itália, México e Portugal. Participou das antologias Caos portátil – poesia contemporánea del Brasil; Poesia do dia – poetas de hoje para leitores de agora; Traçados diversos – uma antologia de poesia contemporânea; BLABLAblogue – crônicas e confissões; Enter – antologia digital e Otra Línea de Fuego – Quince poetas brasileñas ultracontemporáneas. Fez parte da quinta edição do projeto Portfólio, do Itaú Cultural, a convite do escritor Nelson de Oliveira, e escreveu o conto “As irmãs passionistas” para a instalação fotográfica do artista plástico Alexandre Siqueira. Participou também da Mostra Sesc de Artes de 2008 no projeto Poema Passageiro, de Ricardo Silveira, que colocou em circulação poemas de dez escritores contemporâneos brasileiros em mais de quinhentas televisões de aeroportos, livrarias, metrôs e ônibus da cidade de São Paulo. Fez a curadoria da exposição Blooks – Letras na rede, ao lado do poeta Omar Salomão, em setembro de 2007, no Oi Futuro do Rio de Janeiro, sob coordenação de Heloísa Buarque de Hollanda.

  1. OBRA

O livro apresenta 38 poemas curtos, em verso livre, compostos por dísticos (6), tercetos (26), quartetos (3) ou estrofes de tamanho misto (3). A tendência para o uso de tercetos, na maior parte dos poemas, talvez tenha a ver com uma inclinação, consciente ou inconsciente, da autora para o haicai. De fato, em parte dos poemas, as estrofes possuem uma certa autonomia, podendo ser lidas separadamente das demais sem grande prejuízo de seu significado. Grosso modo, poderíamos dizer que esses poemas (não são todos, mas uma parcela significativa) são resultantes do acoplamento ou da justaposição de haicais. Um exemplo disso se encontra em “dotes’:

coleciono mas não leio
cartas antigas, anúncios de almanaque
em latas de goiabada nolasco

sei que estou em permanente mudança
porque todos os dias abro e fecho
gavetas e caixas

[no entanto] aprendi pouco sobre apostas
e temporais, só sei que levam
muito mais do que trazem.

Repare o leitor que, se retirarmos do início da última estrofe a expressão “no entanto” (colchetes meus), que frouxamente a une à estrofe anterior, todos os tercetos poderiam ser lidos, isoladamente, como haicais, e não fariam feio.

Os temas abordados pela autora em Balés são típicos da lírica. Os encontros e desencontros amorosos constituem o tema dominante do livro, e encontram soluções poéticas muito interessantes em poemas como “”dorsal”, “artigos para presente”, “ímpar”, “janeiro” e “pares”. A infância é retratada em “poema para encorajar hélices” e “gangorra”. O tempo ocupa lugar importante em poemas como “mobília”, “rifa”, “lagoa” e “dotes”. E a metapoesia, prática constante dos vates modernos, aparece em “barragem”, “anéis”, “paraquedistas”, “catavento” e “brincos”.

3. CONTEXTO

Bruna Beber, poeta ainda jovem, apesar da trajetória já exitosa, dialoga em Balés com os jovens contemporâneos, falando de assuntos que interessam aos jovens na linguagem rápida e sintética, quase telegráfica, que os jovens também utilizam. Transcrevo, abaixo, o terceiro poema, cujas características formais dão uma idéia bastante próxima do modo de composição adotado pela autora ao longo da obra.

barragem

1 deve ser perigoso
2 esse gosto recorrente
3 de incêndio na boca

4 mas não há saliva pra apagar
5 e não há saliva que apague
6 por isso falo pouco

7 não sei o que de fato queima
8 fecho a boca e o fogo sai
9 pelo nariz

10 respiro mal, meu ar é qualquer fumaça
11 queria um gosto bom, queria pernas
12 pra sair correndo.

Como se pode observar, não há maiúsculas no poema, nem no título, nem no início dos períodos que compõem os versos, e a pontuação praticamente se resume ao ponto final colocado no fecho do último verso, exceção feita às duas vírgulas no terceto final. Essa apresentação lembra imediatamente as liberdades ortográficas introduzidas na poesia por Oswald de Andrade e outros modernistas, na primeira metade do século XX, e já sugere uma expressão solta, descontraída, desatenta a normas e convenções.

Os versos são, igualmente, livres, variando de quatro sílabas métricas (v. 9) a 11 sílabas métricas (v. 10). As poucas rimas, dispersas, são toantes, espécie de ecos esbatidos ou longínquos (perigoso/boca/pouco; recorrente/queima/correndo; apagar/apague/sai/fumaça), que fogem da repetição exata da rima consoante.

Em contraposição a esta aparente fluidez e liberdade da composição, o título, “barragem”, traz as idéias de barreira, obstáculo, impedimento. Porém, observando mais de perto o texto das quatro estrofes, notamos logo a atitude de contenção que leva o sujeito lírico a falar pouco (v. 6) e a fechar a boca (v.8). Os versos são, de fato, curtos, e se resumem a uma dúzia. Desse modo, a contradição inicialmente percebida, entre título e texto, fica em suspenso. O sujeito lírico sente a boca, ou a língua, ou a linguagem poética, como um obstáculo à livre expressão daquilo que o toma por dentro (o incêndio – v.3, o fogo – v.8). Em outros termos, o eu-lírico sente que a linguagem é insuficiente para dizer o mundo, fato que os românticos do século XIX já haviam verificado, e seus sucessores não deixaram de reconhecê-lo

Vale lebrar aqui, rapidamente, os versos de fundo incontestavelmente romântico de Bilac, no soneto “Inania verba”, pela proximidade que a imagem da lava, que utiliza, possui com as de incêndio e fogo no poema de Bruna: “O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava: / A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve…” Para Bilac, a Forma, alegorizada pelo uso da maiúscula inicial, é mais que barragem para o Pensamento, também personificado: é seu sepulcro inescapável. Já Bruna, no poema “Ludíbrio”, que inicia Balés, fala sugestivamente em “enterrar cada parte” e “construir um cemitério”, referindo-se a operações usadas para recalcar uma emoção indefinida.

Outro autor que aborda o descompasso entre o pensamento e a expressão poética, de forma sarcástica, é o simbolista Augusto dos Anjos, no soneto “A idéia”. O texto descreve o tortuoso caminho percorrido pelo pensamento, desde o cérebro (“feixe de moléculas nervosas”; “encéfalo absconso”) até os órgãos da fala (“cordas da laringe”, “língua paralítica”), para constatar, afinal, o fracasso da empresa, uma vez que, no termo do trajeto, o pensamento já debilitado ao extremo pelo esforço da objetivação esbarra no “molambo da língua paralítica”. Note-se, na chave de ouro de Augusto dos Anjos, a ambivalência do vocábulo língua, que tanto pode referir-se ao órgão do corpo envolvido na fala quanto à linguagem articulada através da qual os seres humanos se expressam e se comunicam entre si.

Ainda, num registro lacônico, o mesmo tema aflora em vários momentos no modernista Drummond. Bastem três exemplos: “Gastei uma hora pensando um verso / que a pena não quer escrever.” (“Poesia”); “A poesia é incomunicável.” (“Segredo”); “Este verso, apenas um arabesco / em torno do elemento essencial – inatingível.” (Fragilidade”). A impotência para expressar suas reais vivências interiores parece constitui-se, afinal, em uma marca característica dos poetas modernos, tomando-se por modernos, aqui, aqueles poetas que, desde Baudelaire, buscaram na poesia o lugar para a expressão do mal estar do sujeito aprisionado pelas teias da civilização técnica e da existência padronizada e massificada das metrópoles.

Voltando ao poema “barragem” a partir dessa perspectiva mais ampla oferecida pela poesia moderna, percebemos, desde logo, que o obstáculo à autoexpressão identificado pelo sujeito lírico, no texto de Bruna Beber, aponta para um fenômeno mais amplo, que faz parte daquilo que Adorno, em seu ensaio sobre “Lírica e sociedade”, chama de “corrente subterrânea coletiva”. Em outras palavras, aquele incêndio, ou fogo, que lavra por dentro do sujeito, não pode (ou não deve) ser expresso, não pode (ou não deve) ser objetivado, pois representa um perigo (v. 1) para o próprio sujeito, à medida que lhe confere uma singularidade em meio à massa. O sujeito lírico luta com as forças e os elementos de que dispõe, como a saliva (vv. 4 e 5), ou mesmo o fechamento da boca (v. 8), para esconder a chama de sua singularidade, mas tudo é em vão, já que o fogo não se deixa prender de todo, e acaba escapando-lhe pelas narinas (vv. 8 e 9). Nesse momento do poema, o sujeito lírico, a pôr fogo pelo nariz, lembra a figura um tanto insólita e, no contexto do poema, até mesmo cômica, de um dragão amedrontado, tentando esconder sua verdadeira natureza e fazer passar-se por um ser humano comum.

É lícito associarmos o sujeito lírico de “barragem” à autora, uma vez que estamos diante de um metapoema, através do qual Bruna Beber explicita suas próprias concepções sobre a poesia e o ato de poetar. É através da escrita do poema que a autora alcança re-velar (ao mesmo tempo mostrar e ocultar) elipticamente, como no arabesco de Drummond, os dragões ou demônios que a habitam e a consomem, e que não pode deixar vir à tona na vida cotidiana, sob pena de, no mínimo, ver questionada sua sanidade mental.

O fecho do poema remete a dois desejos do sujeito lírico / da autora: primeiro, o de possuir, em vez do fogo, um “gosto bom” (v. 11) na boca e, provavelmente, poder tagarelar amavelmente com todos e como todos; segundo, o de evadir-se, de fugir para longe, quem sabe rumo a alguma imaginária Pasárgada, onde todos os desejos pudessem se transformar em realidade, ao modo de Manuel Bandeira (“queria pernas / pra sair correndo.” – vv. 11 e 12). Entretanto, esses desejos contrastam com a realidade imediata do sujeito lírico / da autora, expressa no verso 10, justamente o mais longo do poema e aquele que abre o terceto final: “respiro mal, meu ar é qualquer fumaça”. Num poema quase todo escrito em registro simbólico, salta aos olhos esse verso que fixa, em registro realista, um flash vigoroso da vida urbana moderna: a cena do indivídio transitando pelos espaços poluídos e sufocantes, fatalmente insalubres, da cidade grande.

Resta assim, ao final do poema, o sentimento solidário de amargura na boca do leitor. Uma barragem. Uma pedra no meio do caminho. Mas há os poemas de Bruna, de Drummond, de tantos outros, e através deles nossas solidões se comunicam.

4. QUESTÕES PARA REFLEXÃO

No poema “pares”, Bruna Beber inicia afirmando: “dentro do nó um laço / que dissonou”. É um exercício de pensamento e imaginação tentar entender esses dois versos: o que é, afinal, um laço dissonante dentro de um nó? Talvez, no contexto do poema, o leitor possa chegar a uma resposta mais ou menos plausível. Ou não, já que o restante do poema é constituído por apenas mais quatro versos, distribuídos em dois dísticos igualmente enigmáticos: “é assim a dança / das tentativas // uma hora é encontro / noutra vapor.” Entretanto, a estranheza da imagem persiste, mesmo após uma interpretação x ou y. Trata-se de uma daquelas imagens típicas da poesia moderna que, segundo Hugo Friedrich, em Estrutura da lírica moderna, são utilizadas pelos poetas para atingir antes a sensibilidade do que o entendimento do leitor.

A poesia de Bruna Beber não embala o leitor com versos rimados, ritmados, melodiosos e transparentes em relação ao significado. Pelo contrário, seus versos são ásperos, duros, opacos e dissonantes, como o são, segundo Friedrich, os versos dos grandes poetas modernos, nos quais a poesia veio a colocar-se em oposição a uma sociedade preocupada com a segurança econômica da vida.

É possível encontrar essas dissonâncias em outras formas artísticas com as quais dialoga o texto de Bruna Beber, como a dança (título do livro), a música (ver “último tango”), a pintura e a fotografia (ver “galerie” e “anéis”)? E o grande público, já terá incorporado aos seus pressupostos estéticos a legitimidade artística da dissonância?

5. REGISTRO DA LEITURA

Participe, no Facebook, no site da http://jornadasliterarias.upf.br/, postando declarações, vídeos, fotografias, entre outros, relacionados às discussões realizadas a partir da leitura da obra Balés.

6. LINKS

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