Ninguém é inocente em Brasília

PINDORAMA É O PAÍS DO FUTURO
OU
NINGUÉM É INOCENTE EM BRASÍLIA
OU
A CULPA É MINHA
OU
A HORA DA ESTRELA
OU
UMA SENSAÇÃO DE PERDA
OU
ASSOVIO NO VENTO ESCURO
OU
SAÍDA DISCRETA PELA PORTA DOS FUNDOS

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De flores e espinhos

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor.
Se eu me chamasse Nelson Cavaquinho
Não brincavas assim com meu amor.

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Enguiço

A luz nos ilumina na cozinha.
A energia elétrica circula pelos fios,
vinda de distantes centrais geradoras.
O gás aquece a pizza no forno.
Lavo as mãos na pia. A água jorra da torneira,
atravessando a parede dentro dos canos.
Falo contigo. As ideias circulam através das palavras.
Com tanta riqueza à nossa volta,
ocorre nos sentirmos pobres.
Ocorre que as ideias trombam, e as palavras enguiçam.

Tu cortas a pizza. Brindamos,
por hábito. No silêncio da sala,
Mignone inventa uma valsa para piano.
Se tudo corresse bem,
ríamos agora de coisas passadas.
Fazíamos planos, talvez.
E não acontecia este poema.

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Poeminha à maneira de Emily Dickinson

Para a minha velhice
Só espero merecer
Um quintal para a horta
E tempo para escrever.

Se faltar a horta,
Bastará a memória
Dos dias bem vividos.

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Mar bravo

Mar que ouvi sempre cantar murmúrios
Na doce queixa das elegias,
Como se fosses, nas tardes frias
De tons purpúreos,
A voz das minhas melancolias:

Com que delícia neste infortúnio,
Com que selvagem, profundo gozo,
Hoje te vejo bater raivoso,
Na maré-cheia de novilúnio,
Mar rumoroso!

Com que amargura mordes a areia,
Cuspindo a baba da acre salsugem,
No torvelinho de ondes que rugem
Na maré-cheia,
Mar de sargaços e de amarugem!

As minhas cóleras homicidas,
Meus velhos ódios de iconoclasta,
Quedam-se absortos diante da vasta,
Pérfida vaga que tudo arrasta,
Mar que intimidas!

Em tuas ondas precipitadas,
Onde flamejam lampejos ruivos,
Gemem sereias despedaçadas,
Em longos uivos
Multiplicados pelas quebradas.

Mar que arremetes, mas que não cansas,
Mar de blasfêmias e de vinganças,
Como te invejo! Dentro em meu peito
Eu trago um pântano insatisfeito
de corrompidas desesperanças!…

(Manuel Bandeira, do livro O ritmo dissoluto)
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Adeus, my Captain

O Captain ! my Captain ! our fearful trip is done
(Walt Whitman)

Gente sem rosto,
gente sem nome,
gente sem conta,
de sul a norte,
exposta aos trancos
brutos da vida,
sonhava um dia
trocar de filme,
sonhava um dia
ser Robin Williams.

Quem poderia
supor o quanto,
exposto aos trancos
brutos da vida,
o astro sofria?
(A depressão,
negra pantera,
vinha em seu rastro,
e o derrubou
do seu cavalo.)

Adeus. Vam’bora
tocar a vida.

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Sabença

Às vezes, penso que sei alguma coisa.
Às vezes, penso que não sei nada.
Nunca pensei que soubesse tudo.
Já é alguma coisa.

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Carpe diem

Ser jovem? Ser velho?
Tanto faz como tanto fez.
Só se vive um dia
de cada vez.

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Bruce lírico

Querendo ser Bruce Lee, comprei um tchaco.
Gira pra cá, pega de lá, e pá!
Desferi contra a testa tal pancada
Que a cabeça saiu pelo sovaco.

Acordei com um anjo a costurar-me
A testa com as cordas de sua harpa.
Sofro alucinações desde essa época.
Adeus artes marciais. Virei poeta.

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Manuel Bandeira, não eu

Manuel Bandeira, não eu, confesso,
escreveu o poema sobre a estrela,
que entre as colegas da escola me deu glórias de poeta.
Também de Bandeira, a declaração de amor
que fiz num bilhete para a Alice
– mas ela, insensível, não devia gostar de poemas…

De Bandeira, os versos torrenciais, dilacerados e alegres
sobre a alegre vida pungente,
que repercutiam no meu cérebro como numa câmara de ecos,
como eram invenção dele todas as verdades simples
que eu mesmo queria ter descoberto.

E, mais que meus, eram de Bandeira os suspiros
que eu dava, presa de futuras nostalgias,
humildemente pensando na vida e nas mulheres que amaria.

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