Neusa

Minha cara Neusa Rocha,
minha cara, nossa cara,
a educação, sim, tem cara:
é a cara do professor,
é a cara da professora
que no dia a dia encaram
a tarefa de ensinar
a palavra e o além-palavra
– o sentimento e o caráter
que moldam o ser humano.

O mestre escreve no quadro
e escreve mais fundo na alma
de quem assiste sua aula
buscando se reinventar.
O mestre mostra sua cara,
o mestre dá a cara a tapa,
mete a cara, quebra a cara,
e faz dos próprios fracassos
matéria de aprendizagem.

Cara a cara com o aluno,
muito mais que conteúdos,
o mestre ensina o diálogo,
ensina a ouvir e a falar,
e a cada um dá que possa
criar sua própria história.
A educação, sim, tem cara,
minha cara Neusa Rocha:
tua cara, nossa cara.

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Onde estão?

Me colocaram a guardar o fogo.
Sozinho no pátio.
Era Semana da Pátria?
Era Semana Farroupilha?
O simbolismo se desfez em cinzas.
O próprio fogo há muito jaz extinto.

Onde andará a professora Olívia?
Meus amigos Hilário e Adalberto?
A princesa Anelise? A Ângela cigana?
Grito ou riso nenhum corta o pátio deserto.

Só eu estou lá, de pé, guardando o fogo.

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Gaiota

Como não tinha
um pintor expressionista
naquele instante
a atravessar a avenida?

Como não tinha
um fotógrafo que fosse?
Um repórter de tevê
com a câmera a postos?

Só cruzou por ali
um poeta novato
e registrou a cena
em versos telegráficos:

O anjo nu dormita
sobre sacos de lixo
na gaiota. A mãe
é tração animal.

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Mutti

Após a morte da mãe,
passados meses do seu enterro,
eu vislumbrei, ao despertar,
seu vulto à minha cabeceira.

– Mortos não morrem, soprou-me ela.
Sem perceberem, vocês nos carregam
até que possamos renascer.

Hoje eu pari minha mãe inteira.
Então fui preparar nosso café.

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Exílio na rua Cipó

Minha rua tem sabiás
que ciscam por trás das grades
e cantam como os de lá.

Tem gramado atrás das grades.
Tem jardins atrás das grades.
Tem grades atrás das grades.

Tem um cipó pendurado
em galho nenhum, na mata
morta, terraplenada.

Por que diabo ainda há sabiás?
Por que cantam, prisioneiros?
Minha terra tem palmeiras.

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Mãe

Mãe, palavra ímpar
Não tem rima na língua
Nem no coração

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Portas de Portugal

Portas fechadas
Não movem moinhos
Portas abertas
Destampam abismos
Fernando Pessoa
Assoprou pra mim
Que todas pessoas
São assim, assim
Portas fechadas
Portas abertas
Portas de Portugal

Mudam as vontades
A vida é mudança
Eu não moro em casa
Onde eu moro não importa
Camões vem ao meu lado
Salvou seu livro a nado
Mas eu não nado nada
Agora Inês é morta
Portas fechadas
Portas abertas
Portas de Portugal

Navegar é preciso
Ver o desconhecido
O caminho das Índias
Passa pelo Brasil
A Terra caiu na rede
Ao alcance de um clique
Mas meu site na rede
Tomou chá de sumiço
Portas fechadas
Portas abertas
Portas de Portugal

Viver é impreciso
Os mapas são antigos
As bússolas viciadas
E os astros decaídos
Gastei sola em Angola
Portugal e Bahia
Noves fora, viola
A vida é utopia
Portas fechadas
Portas abertas
Portas de Portugal

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Triste Brasil

Uma raposa estudada
do Supremo Tribunal
vem gastando o seu latim
pra mandar pro xilindró
quem matou galo e galinha.
Enquanto isso, em Gotham City,
a mesma suprema corte
devolve à instância inferior
o caso do mandatário
que afanou milhões do povo.

Moral da história:
Pra raposa, o galinheiro
vale mais que o país inteiro.

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Achados e perdidos

Os editores reclamam
que ninguém lê poesia.
Que somos incompreensíveis.

Fossem às livrarias
e desvendavam o mistério:
não há poesia à venda.

Entretanto, Libertinagem
se expõe ao público, pouco cabotino,
entre livros pornográficos.

Claro enigma? Fácil!
Na seção de charadas.
O cão sem plumas na veterinária.

A luta corporal nas artes marciais.
O aprendiz de feiticeiro no ocultismo.
O coração disparado na cardiologia.

E assim os livreiros escondem
– inscientes ou sábios? – os ovos
de Páscoa da poesia.

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Cascudinho

O cascudinho veio voando
e pousou no meu braço.
Era verde-ouro-aveludado,
de uma cor que eu nunca sonhara.

O cascudinho bateu asas.
Não o retive com a mão
por medo de machucá-lo.
Mas chorei porque foi-se embora.

Hoje, se um inseto pousa em mim,
dou-lhe um piparote, e adeus.
Já não se assombram, nem choram,
meus olhos velhos de eras.

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