Estrada do Mato Comprido

As flores das laranjeiras
sustentavam as manhãs

O campo crescia verde
no alarido das cigarras

Vacas pariam, no estábulo,
a eternidade das famílias

De dentro do morro vinha
um silêncio de reserva

– como o das casas em que há,
dormindo, um recém-nascido.

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Não me leve a mal

Não me leve a mal
Falei de coração quente
Meti os pés pela boca
Falei o oposto
do que sinto e penso
quando penso em você

Não me leve a mal
mas aquele que ama
(e me perdoe o Quintana)
prefere o afago leal
do seu cavalo, ao casual
beijo de uma borboleta

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Fiat lux

Nunca vi Deus fazer surgir um fósforo
mas dizem que criou a luz e as trevas
o céu e a terra
os bichos e a gente
Todo dia vejo o sol nascer
e toda noite o sol se pôr
e as estrelas brotarem da treva
Do céu caem raios, chuva, granizo
Os homens cultivam a terra
Erguem casas, muros, pontes
Os pintos nascem dos ovos
Os bezerros saem da barriga das vacas
A gente, de algum jeito misterioso,
saiu da barriga de nossas mães

Fiat lux é a marca dos fósforos
que usamos em casa toda manhã
para ligar o fogão à lenha
e cozinhar o feijão para o almoço
Quando o fósforo acaba
a mãe me manda ir à venda
da mulher que tirou fora os peitos
porque teve doença ruim
(e desde então seu sorriso
como um fósforo riscado
nunca mais se acendeu)
a mãe me manda ir à venda
comprar um pacote de fósforos
Eu não gosto de ir, mas vou
Nunca vi Deus fazer surgir um mísero fósforo

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Pergunte ao pó

Viveu, não viveu,
o pó comeu,
o chão comeu,
o não comeu.

Mas quem sou eu?
Matéria de um sonho?
Sonho da matéria?

Eu sou eu, não sou eu.
Sou tudo o que serei, tenho uma força enorme.

Quando eu morrer, junto ao meu túmulo,
pergunte ao pó sobre o tumulto
que um dia o levantou do chão
e respondia por meu nome.

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Três fff

Os três fff conjugados
de fama, foda e fortuna,
no entendimento dos sábios
compõem a felicidade.
Mas a vida embaralhou
o alfabeto do meu fado:
perdido no anonimato,
resto fodido e mal pago
assistindo ao BBB
em pay-per-view na tevê.

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Classificados

Aluga-se, janeiro,
a casa na praia,
a garagem, a piscina,
as varas de pescar.

Aluga-se a luz,
a água encanada,
a pia, o fogão,
a cama de casal.

Aluga-se a rua
com sua manhã
de sol
e paralelepípedos.

Aluga-se a areia,
a sombra do guarda-sol
e as moças que passeiam
nuas tuas na orla.

Aluga-se o mar,
suas ondas, o sal
e o vento que sopra
carregado de barcos.

Alugam-se as nuvens
e a atenção dos salva-vidas.
Pelo aperto do ano inteiro
ALUGA-SE JANEIRO.

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Estranha vontade

Vídeo do poema:

http://youtu.be/Xq_hh9M2Tt8

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Dia do contra

O psicanalista xingou a mãe.
O locutor ficou sem palavras.

O presidente ficou impotente.
O padre mandou tudo pro inferno.

O juiz perdeu o juízo.
A telefonista perdeu a linha.

O palhaço fez cara de velório.
O escrivão teve culpa no cartório.

O poeta perdeu o ritmo.
E o louco falou com siso.

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Canto rouco

A mãe também tem uma música
sua, que a acompanha,
como os temas das estrelas
nas novelas da tevê

Só que não toca em off
Com sua própria voz
rouca e acanhada, a mãe canta
os versos apaixonados

A vida, como a voz, destoa
Quanta tristeza sem nome
a mãe não deve espantar
quando canta

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Ano novo

Até aqui
tudo foi treino.
O jogo é hoje.

Eu entro em campo
pisando firme.
Eu entro em campo
de corpo inteiro.

Hoje é o jogo
sempre outra vez
novo e derradeiro.

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