De volta ao front

Vista do alto, à noite,
a cidade cintila de luzes.
É um céu entornado no chão.

O aeroporto, um táxi para o centro.
Outra vez de volta ao front da guerra.
O inimigo é legião.

As estrelas emudecem no céu de neon.

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A indesejada das gentes

Para Greicy Kelly, que deu o mote

A morte, essa cadela
que se deita com todos,
corro com ela a pau,
corro com ela a pedras,
corro com ela aos gritos.
Quem diz que vai-se embora?
Segue sempre em meu rastro
a me abanar o rabo.
Faz festa por meus ossos
que ainda há de trincar.

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A poesia é pop

Para HG

A poesia sopra
pop ou brisa
onde lhe apetece

rabisco de carvão
na parede

fala cambaleante
de bêbado

brinquedo-texto
de poeta bissexto

milonga
do Ramil

prece
infantil

a poesia sopra
na Rússia, no Brasil,
na puta que a pariu

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Tristes trôpegos

Todo artista tem chiliques
Tem achaques, piripaques
Manias e desvarios
Os nervos à flor dos dedos
A alma sempre em frangalhos
E a cegueira de quem vê.

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Tombo

O que nos tira o chão
vem de supetão.
Então, é apalpar
os músculos e os ossos,
um a um, e ensaiar
levantar de novo os olhos.

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Cuore

Aí está tua vida, em ordem e amarrada até a última ponta.
Aí está tua vida, pronta para desabar.
Quando você era adolescente, tinha um gravador barato
que chiava mais que um rato,
e um rádio de pilha que estava sempre no fim da pilha.
Tinha também três namoradas: uma dos olhos,
outra dos pés, outra do riso.
Tinha três namoradas e só você sabia disso.
Ouvia músicas italianas que faziam doer de românticas.
Ouvia músicas de amor que faziam doer teu cuore.
Aí está tua vida, pronta e amarrada de ponta a ponta.
Aí está tua vida, prestes a desabar.

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Fim de festa

Não se brinca mais
quando a carne e os nervos se foram
e a faca raspa o osso

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Fênix invicta

Por capricho dos deuses
brotou, anônima,
no canteiro rente à rua.
Crianças a pisavam
por descuido ou maldade.
Ela se recompunha.
Veio a seca, veio a chuva.
O granizo rasgou suas folhas.
Na primavera, estreou folhas novas.
Vieram as máquinas da prefeitura.
Arrancaram os paralelepípedos da rua
e jogaram uma caçamba de paralelepípedos sobre ela.
Passou meses soterrada.
Levaram as pedras. A rua agora de asfalto.
Uma muda de árvore no lugar,
com um cercadinho.
Fênix invicta,
rebrotou das raízes
adormecidas.
Fez-se alta e vistosa
como nunca antes
ao lado da árvore nova.
“Ela dá flor?” pergunta o menino à mãe.
“Acho que não”, diz a mãe. “Deve ser folhagem.”

Comigo-ninguém-pode.
Esse é o nome da planta.

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Toco

Para José e Woniva, meus pais

Atrás de casa tinha um toco enorme
oco
onde se jogavam copos quebrados
cacos de louça lâmpadas
vidros de remédio latas parafusos
tudo

Pequeno
cacei ali meu tesouro
de cores
e formas
e cheiros
Herói real na tarde imaginária
voltei a escondê-lo no toco

O toco
cumulou-se de destroços sem novidade
Folhas voaram para dentro dele e apodreceram
Musgos cobriram-no
Samambaias
Desprezo
O tempo atravessou-o num raio
Aranhas tomam suas frestas

Sou eu

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Chuva de molhar pato

Tarde de chuva fininha
Cai mansinha minha sina
O meu cérebro baldio
empoça de águas cinzas

Grilos cricrilam, sapos
coaxam dentro dos valos
Um ônibus passa lotado
de passageiros calados

Um vira-lata molhado
com pelos da cor do barro
com olhos da cor do barro
anda na rua de barro

Um mosquito dobra a esquina
Senta na cerca caída
Cresce sem dono o capim
em meio a montes de lixo

Um poste tromba num bêbado
Os besouros batem, cegos,
contra a luz que teima acesa
– farol perdido no ermo

Longe se escuta o ruído
de motores e buzinas
e ecos dos cantos e gritos
dos crentes em culto a Cristo

A chuva fina persiste
enquanto a noite se aninha
nos quintais e nas esquinas
da minha alma quase triste

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