Do Parnaso ao pão nosso

Fogos de artifício
no céu do papel
espocam e se apagam.

Cadê os poetas do nosso tempo?
Dos nossos sonhos, ossos, esperas?
Da nossa língua dividida em classes?

Jogam seu frio dominó?
Extraem faturas ou notas?
Voltaram ao parnasianismo?

Atarefados, compilam
manuais de esoterismo
e metafísicas sem dor?

Garimpam rimas pra vida
no dicionário de rimas?
Produzem releases, layouts?

Autografam? Infestam coquetéis?
Alagam livros e suplementos
com destroçamentos gratuitos?

Cadê os poetas, pergunto,
que possam nutrir nossas almas
com alguma emoção do mundo?

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Cadeira de balanço

A avó na sala
A tricotar paciência
Óculos mãos ossos
Cadeira de balanço

A avó no quarto
A vigiar a neta
Santa no retrato
Cadeira de balanço

A avó na campa
A acampar sua dor
Chão solidão não
Cadeira de balanço

A cadeira no sótão
A ranger sozinha
Vento? Assombração?
Vai e vem de lembranças

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Machucados

Quando éramos pequenos,
Mamãe passava a mão onde sentíamos dor,
e dizia: Já passou, já passou, já passou.

Hoje passo eu mesmo a mão nos meus machucados,
e repito: Já passou, já passou, já passou.
Mas há dores que nem Mamãe não resolve.

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Eu e meus mascotes

Cadê meu nome?
O gato comeu.
Virei só o pai
do Gali-Leu.Paulo com mascotes Gali-Leu e Reco-Reco 1Exposição dos 10 anos do programa Mundo da Leitura, ago/13
15ª Jornada e 7ª Jornadinha Nacional de Literatura – Passo Fundo – RS

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Barbearia

A barbearia cerrou as portas
Difícil encontrar outro barbeiro
que saiba ouvir o meu silêncio

(Poema selecionado no Concurso Poemas no Ônibus e no Trem/Edição 2013, da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre.)

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Entrega do troféu para Humberto Gessinger

Gessinger e eu no palcoEntrega do troféu Roseli Doleski Pretto para Humberto Gessinger na 15ª Jornada Nacional de Literatura, ago/13.

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Entrevista Paulo Becker e Humberto Gessinger

foto gessinger paulo taísPaulo Becker e Humberto Gessinger concedendo entrevista para Taís Risoto, da UPFTV, ago/13.

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Em nome do amor

Para João Cabral de Melo Neto, em memória

MARINA: Não me ame. Não me ame desse jeito. Seja apenas meu parceiro. Vamos rir juntos, falar besteiras. É pedir muito, meu amor?

LÚCIA: Não, não me ame desse jeito. Não faça de mim a tua vida. Pobre de mim. Pobre de ti, que não tens vida alguma, e te aferras a mim como se eu fosse a tua tábua de náufrago. E me levas junto para o escuro fundo, para o nada.

VÍVIAN: Não me ame desse jeito, ame primeiro a si mesmo. Preciso do amor que escuta e aceita, que curte e cuida. Assim, poderemos até falar em casamento. Poderemos vir a ter filhos, então, que não lhes faltará o amor.

MARINA: Não me ame, não, se você me ama. Seja apenas meu amigo. Amizade colorida também vale, por que não? Vale suspirar de saudade na ausência do outro. Vale brindar cada reencontro com um sorriso puro como a água da chuva. Um sorriso simples e natural e verdadeiro como o amor que queremos.

LÚCIA: Não me ame não me ame não me ame. Em nome do amor não me ame. Lave a boca antes de falar em amor. Não arraste na sarjeta o sublime nome do amor.

VÍVIAN: Não me ame se você me ama. Ame a si, que eu me amo a mim. Sempre amamos a nós mesmos no outro. Amamos a nós mesmos no amor que o outro tem por nós.

MARINA: Não me ame, não, desse jeito. Seja apenas meu amante. Eu quero que alguém me mate de amor, e não por amor.

LÚCIA: Não me ame mais. Eu te proíbo. Deixe de me amar agora mesmo. Pelo amor de Deus. Por todo amor que diz sentir por mim. Pare agora mesmo de me amar, e largue essa arma.

VÍVIAN: Não me ame como um cachorro ama o dono. Vá abanar o rabo em outra freguesia.

MARINA: Não me ame desse jeito. Seja apenas meu homem. Quero ser apenas tua mulher. Homem e mulher, para o amor foram feitos.

LÚCIA: Não me ame desse jeito torto. O amor não é uma fera tão cega e rasteira que se sacie com a vingança, e saia lambendo os beiços empapados de sangue. Dar um tiro no meu peito só vai provar que você não me ama, mais nada.

VÍVIAN: Não me ame mais do que você é capaz de amar-se. E não confunda ódio com amor. Fraqueza com amor. Loucura com amor. Eu sou imperfeita feito você.

MARINA: Não me ame. Seja apenas meu outro. Esse outro sem o qual eu mesma não existiria. Amar é só isso: existir em dobro.

LÚCIA: Não me ame mais, nem me fale em amor. É só isso que te peço. Agora, se quiser me matar, me mate. Mas não diga que foi por amor. O amor verdadeiro é o que doma o animal que há dentro de nós mesmos, e não o que se deixa dominar por ele. Você me dá pena. Adeus.

VÍVIAN: Não me ame desse jeito. Não me ame mais. Não quero ver nosso amor nos jornais. Não quero ver nosso amor embrulhando peixes no mercado. É pedir muito?  É pedir demais? O amor verdadeiro é silencioso e invisível como a vida. Você topa vivermos juntos?

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À nossa imagem

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Um homem passa carregando um pão

Um homem passa carregando um pão
Vou escrever, depois, sobre meu duplo?

Outro senta, se coça, cata um piolho na axila e o mata
Com que proveito falar de psicanálise?

Outro desce o cassetete no meu lombo
Debater sobre Sócrates com o doutor?

Um coxo passa se escorando em um menino
Vou ler, sem demora, André Breton?

Outro treme de frio, tosse, escara sangue
Devo aludir, aqui, ao Eu profundo?

Outro fuça no lixo atrás de ossos e restos
Como escrever, depois, sobre o infinito?

Um pedreiro cai da construção, morre e já não come
Renovar a linguagem, reinventar a metáfora?

Um vendeiro rouba o freguês na balança
Falar, depois, da quarta dimensão?

Um banqueiro falsifica seu balanço
Com que cara chorar no teatro?

Um mendigo dorme com um pé enfaixado
Falar aos entendidos sobre Picasso?

Alguém chora em um enterro, compungido
Disputar uma vaga de imortal na Academia?

Alguém limpa um fuzil em sua cozinha
Com que propósito falar do outro mundo?

Um adulto se põe a fazer contas nos dedos
Como falar do não-eu sem se enfurecer?

(Poema de César Vallejo, Peru, 1892 – Paris, 1938, do livro Poemas humanos – tradução de Paulo Becker.)

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