Poesia não compra sapato,
mas como andar sem poesia?
Poesia não compra sapato,
mas como andar sem poesia?
No jardim coberto de geada
a última boca-de-leão
bate os dentes.
Segue link de entrevista que dei ao Jornal do Almoço da RBS, afiliada da Globo, sobre canções das Jornadas de Literatura de Passo Fundo.
Meu Pai teve na vida dois pares de sapatos:
um de solteiro, outro de casado.
Falava que enfrentaria o Presidente da República
com as botas sujas da roça,
pois é digno todo aquele que trabalha.
Mas enfrentou a Mãe, diante do altar,
num vistoso par de sapatos novos.
Morte, minha princesa,
somos poeira de estrelas.
Vem deitar-te comigo.
O círculo se fecha.
Volto a ser o que eu era
antes de haver nascido.
Os cafezinhos do stress.
Os cigarros da ansiedade.
Conversa de dedos trêmulos
e assuntos esfarrapados.
No teatro, qual teu papel?
No circo, és tu o palhaço?
Eis o espelho, e eis tu mesmo.
Eis o teu maior rival.
A infância que não tiveste
te espia do abstrato álbum.
A tevê é tua janela.
Teu país, uma ficção.
És o mostro do Loch Ness?
O fantasma de teu pai?
Guias chiando os pneus.
Ris com ganas de chorar.
O poema tem parto difícil
Desentranha lenta pedra
do coração do poeta
Deixa membranas, veias, pele
por cortar
O poema vai-se formando aos poucos, sorrateiro,
até chegar o momento em que é o poeta
quem resta para dentro do poema,
em palavras, silêncios e receios
O poema tem parto difícil
E qualquer cesariana
pode perdê-lo
Meu jogo é na defensiva.
Ao contrário de Caetano,
que dribla e brilha, eu disfarço
– espalhafatoso tímido.
Meu andar na corda bamba
é ser um homem comum.
Expor-se ao bandido é luxo
de herói de bangue-bangue.
Que pode a literatura
contra a vida a se perder?
Meus versos mal deixam ver
quanto em mim fica no escuro.
No entanto, me rói por dentro
(imperdoável desatino)
a esperança de algum dia
marcar um gol de goleiro.
O dia está tinindo
de tão novo,
de tão limpo
Vontade de ser sino
e vibrar no ar
blém-blom, blém-blom
o gozo de estar vivo
Tenho um passado
Não posso livrar-me disso
Tenho um futuro
Dele também não me livro
Mas giro no vórtice
do aqui e agora
Só o esquecimento é que condensa,
e então minha alma servirá de abrigo
Não estou no tempo, sou tempo
blém-blom
vivo, pulsante
blém-blom
entre quatro paredes
blém-blom
na rua, a céu aberto
blém-blom
na terra, no mar, no ar
blém-blom
num parêntese do universo
blém-blom
a vibrar, inaudível,
blém-blom
a batida da vida infinita
No quarto andar da fábrica de cola
o jovem empregado empilha latas
e vê, pela parede envidraçada,
a muralha de nuvens cinza-chumbo
erguer-se ameaçadora no horizonte
O suor goteja-lhe do rosto e empapa
a camiseta do uniforme azul
Os galões lhe escorregam das mãos úmidas
O cheiro de solvente entranha em tudo
Sozinho no depósito, ele anseia
ver o céu vir abaixo, e o temporal
varrer as ruas com dobrada fúria