Emmanuel Marinho

Poesia não compra sapato,
mas como andar sem poesia?

 

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Manhã de inverno

No jardim coberto de geada
a última boca-de-leão
bate os dentes.

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Entrevista Jornal do Almoço

Segue link de entrevista que dei ao Jornal do Almoço da RBS, afiliada da Globo, sobre canções das Jornadas de Literatura de Passo Fundo.

http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/jornal-do-almoco/videos/t/passo-fundo/v/compositor-fala-sobre-a-melodia-que-embala-leitores-na-jornada-nacional-de-literatura/2773231/

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Sapatos

Meu Pai teve na vida dois pares de sapatos:
um de solteiro, outro de casado.
Falava que enfrentaria o Presidente da República
com as botas sujas da roça,
pois é digno todo aquele que trabalha.
Mas enfrentou a Mãe, diante do altar,
num vistoso par de sapatos novos.

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Final feliz

Morte, minha princesa,
somos poeira de estrelas.
Vem deitar-te comigo.
O círculo se fecha.
Volto a ser o que eu era
antes de haver nascido.

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Banho-maria

Os cafezinhos do stress.
Os cigarros da ansiedade.

Conversa de dedos trêmulos
e assuntos esfarrapados.

No teatro, qual teu papel?
No circo, és tu o palhaço?

Eis o espelho, e eis tu mesmo.
Eis o teu maior rival.

A infância que não tiveste
te espia do abstrato álbum.

A tevê é tua janela.
Teu país, uma ficção.

És o mostro do Loch Ness?
O fantasma de teu pai?

Guias chiando os pneus.
Ris com ganas de chorar.

 

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Parto difícil

O poema tem parto difícil
Desentranha lenta pedra
do coração do poeta
Deixa membranas, veias, pele
por cortar

O poema vai-se formando aos poucos, sorrateiro,
até chegar o momento em que é o poeta
quem resta para dentro do poema,
em palavras, silêncios e receios

O poema tem parto difícil
E qualquer cesariana
pode perdê-lo

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Autorretrato

Meu jogo é na defensiva.
Ao contrário de Caetano,
que dribla e brilha, eu disfarço
– espalhafatoso tímido.

Meu andar na corda bamba
é ser um homem comum.
Expor-se ao bandido é luxo
de herói de bangue-bangue.

Que pode a literatura
contra a vida a se perder?
Meus versos mal deixam ver
quanto em mim fica no escuro.

No entanto, me rói por dentro
(imperdoável desatino)
a esperança de algum dia
marcar um gol de goleiro.

 

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Viver, verbo intransitivo

O dia está tinindo
de tão novo,
de tão limpo

Vontade de ser sino
e vibrar no ar
blém-blom, blém-blom
o gozo de estar vivo

Tenho um passado
Não posso livrar-me disso
Tenho um futuro
Dele também não me livro
Mas giro no vórtice
do aqui e agora

Só o esquecimento é que condensa,
e então minha alma servirá de abrigo

Não estou no tempo, sou tempo
blém-blom
vivo, pulsante
blém-blom
entre quatro paredes
blém-blom
na rua, a céu aberto
blém-blom
na terra, no mar, no ar
blém-blom
num parêntese do universo
blém-blom
a vibrar, inaudível,
blém-blom
a batida da vida infinita

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À espreita

No quarto andar da fábrica de cola
o jovem empregado empilha latas
e vê, pela parede envidraçada,
a muralha de nuvens cinza-chumbo
erguer-se ameaçadora no horizonte
O suor goteja-lhe do rosto e empapa
a camiseta do uniforme azul
Os galões lhe escorregam das mãos úmidas
O cheiro de solvente entranha em tudo
Sozinho no depósito, ele anseia
ver o céu vir abaixo, e o temporal
varrer as ruas com dobrada fúria

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