Berrante

Meu vô, me empresta o berrante
Quero chamar meus irmãos
Deu estouro na boiada
e eu sozinho não dou conta

Meu vô, me empresta o berrante
Quero chamar meus amigos
O baile vai começar
e há mulheres como trigo

Meu vô, me empresta o berrante
Quero chamar meus comparsas
A briga está muito feia
e já fiquei lastimado

Meu vô, me empresta o berrante
Quero chamar Catarina
O maio já vai em meio
e a tapera está erguida

Meu vô, me empresta o berrante
Quero chamar a parteira
Catarina berra e berra
e eu não sei nenhuma reza

Meu vô, me empresta o berrante
Quero chamar os meus filhos
Rumaram pra Capital
e ninguém manda notícias

Meu vô, me empresta o berrante
Quero tanger a tristeza
Catarina partiu antes
e é longo o entardecer

Meu vô cego e surdo e morto,
já estou com o pé no estribo
Vamos prosear, sem demora,
cara a cara, no infinito

Teu berrante já não vibra
seu fundo e grave chamado
Orna a parede  da sala
de um bisneto tresmalhado

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Dublê de alma

Salto da dor
em movimento.
Ponho a correr
gangues de mágoas.
Encaro o medo
maior que eu.

Rio da minha
vaidade exposta.
Troço do amor,
triste pedinte.
Saio da dança
da indecisão.

Rezo. Blasfemo.
Me desconheço.
Pêndulo cego,
jogo entre extremos.
Mando pro inferno.
Entrego a Deus.

PS: Nunca
repita em casa
isso que faço
sem a ajuda
de um poeta,
dublê de alma.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Café da manhã

Deus não habita este lar
Este ar
Esta xícara de café frio

Ao redor da mesa, a família,
com dentes cariados e mãos duras
toma o café da manhã
Mastigam e engolem, famintos,
e falam dos trabalhos do dia

Embaixo da mesa, o gato
pedincha
pão e algum carinho

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

A dor me pôs na sombra, na penumbra

A dor me pôs na sombra, na penumbra,
porque a dor traz a noite quando irrompe,
e onde estou não se encontra um outro homem
mortificado como eu sou – nenhum.

Dor com dor e mais dor: meu desjejum.
Dor meu repouso e dor os meus esforços.
Cão que late a meu pé e não me abandona,
sempre fiel ao dono, cão importuno.

Cardos, dores me põem sua coroa.
Cardos, dores me açulam seus leopardos
e partem um por um todos meus ossos.

Já não pode o meu corpo resistir,
entre dores e cardos sufocado.
Que lento sacrifício é nossa vida!

Soneto de Miguel Hernández (1910-1942) – tradução de Paulo Becker.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Anoitecer

Após um dia de trabalho
desço o morro ao anoitecer

Diviso as roças de sempre,
iluminadas pelo último sol,
as casas de sempre, as mesmas
florzinhas sob as janelas,
e sinto uma vontade imensa
de carregar tudo isso
comigo – dentro de mim
Entretanto, os cascalhos da estrada,
ringindo a cada pisada,
riem das minhas sandices

Sigo em frente chutando pedrinhas
na distração dos sozinhos

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Pedra negra sobre uma pedra branca

Morrerei em Paris com aguaceiro
em um dia do qual já me recordo.
Morrerei em Paris – e não me apresso –
numa quinta, talvez, num outro outono.

Numa quinta será, porque hoje, quinta,
ao meter os meus úmeros à mala,
meditando estes versos, entrevi
os caminhos que andei, abandonados.

Morreu César Vallejo. O apedrejam
todos sem que ele possa defender-se.
Agridem-no com paus e o martirizam

com lambadas de relho. O testemunham
as quintas-feiras e meus ossos úmeros,
a solidão, a chuva e os caminhos.

Poema de César Vallejo (Peru, 1892 – Paris, 1938) do livro Poemas humanos – tradução de Paulo Becker.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Longada

Mario Quintana passeia
nas ruas de Porto Alegre
sem mais saber se é ele
ou um poema seu, inédito,
carregado pelo vento.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Maria-mole

Lá vai meu tio de cabeça baixa como boi resignado
A nuca de fora sob o cabelo cortado redondo
Vai suar na fundição por um salário miserável
e crê que o patrão o tem em alta conta

Lá vai meu tio de fundilhos remendados
Na mão o almoço envolto em papel de embrulho
Ele ama o suadouro e a fuligem da fundição
porque o põem noutro mundo longe da mulher com úlceras

Lá vai meu tio calçando sapatos maria-mole
Malandro quarentão assovia pras moças de minissaia
À noitinha no bar toma um e outro gole
e volta pra casa, os olhos no barro das ruas do bairro Liberdade

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Noturno

Sou ônibus recolhendo.
Não paro pra mais ninguém.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Porque no engraso los ejes

Poeta jovem, escrevia versos
para me mostrar
superior, sensível, singular
No embalo das musas
dramatizava dores e amores
num espetáculo solo sobre o palco
e se o aplauso não vinha
é que o público era surdo

Hoje escrevo só para quebrar o silêncio
e te mostrar
que ando sozinho, andas, andamos
Arrastamos mundo afora nossas carretas
abarrotadas de dores e amores imperfeitos
e palco não há, nem teatro, nem musas,
apenas solidões que, vez por outra, se cruzam
e seguem, surdas, cada qual o seu rumo

Los ejes de mi carreta nunca los voy a engrasar

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário