Complô

Para os poetas de todos os ofícios

Vamos fazer um complô
de poesia neste país?
As pessoas estão sempre
à beira da selvageria,
e a cultura é só um verniz.
As pessoas estão sempre
à beira da epifania,
e a cultura chama a polícia.
Vamos voltar à poesia,
nosso bem de raiz?
Só quem cria e se recria é feliz.

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Minha poesia

Para Luis Fernando Verissimo

Minha poesia uma doação para o futuro?
Ora, Camões

Quando o homem do século XXX
por acidente topar com ela
entre computadores, armas
e outros trastes de hoje
(quando buscava sabe-se lá o quê)
e decifrar, nestes arabescos,
a mão que os criou e sua dor,
só por um instante pensará com seus zíperes
antes de devolver meus poemas ao pó:
Não é que esses trogloditas
já sofriam igual a nós!

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Minha boêmia

Eu caminhava, as mãos nos bolsos desgastados;
Também meu paletó fazia-se ideal:
Ia sob o céu, Musa! e era o amante leal!
Ah que esplêndido amor o que então foi sonhado!

Meus únicos calções tinham um grande furo.
– Pequeno Polegar que entre rimas discursa,
Via minha taverna às margens da Grande Ursa.
E os astros – todos meus – sussurravam no escuro!

Sentado eu escutava, à beira dos caminhos,
As meigas noites de setembro; e tinha o vinho
Do orvalho sobre a fronte – ó tônico perfeito!

E ali rimas tecia entre vultos fantásticos,
Com a minha lira – meu sapato e seus elásticos
Que fazia vibrar, tendo um pé contra o peito!

Artur Rimbaud (1854-1891), com tradução de Jorge Wanderley.
Rimbaud pinta o retrato do poeta moderno, que desceu do pedestal, perdeu a auréola que tradicionalmente o distinguia dos demais, e agora tornou-se um andarilho e um vagabundo.

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Round

 

BIP! BIP! BIP! BIP! UM-DOIS! UM-DOIS!
O despertador comanda o alvorecer
como um general alemão

A gravata aperta o nó

O trânsito
faz ases no volante
e pedestres heróis

A mesa atrofia
a mente

Os jornais mentem

Os edifícios
empilham solidões
nos apartamentos

TODOS TELEVIVEM

A cama acolhe
o atleta no corner

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Sem título

Caminhei rolei ralei
Antes que a morte me cale
cantarolarei

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Caderno de recordações

Anelise bonita e caprichosa não sabia
onde guardar a beleza da aurora
a graça dos gatinhos recém-nascidos
o amor-perfeito que lhe dei
Anelise não tinha coração

O coração de Anelise era um caderno de recordações
de capa dura e lustrosa e páginas coloridas
Nele recolhia as lembranças dos colegas de aula
as amizades e os miúdos namoros
No final do ano, iam para o fundo do baú e lá ficavam

E lá ficaram para sempre meus versos adolescentes
que comparavam sua face sardenta a um céu cheio de estrelas
Ora, direis, um céu sardento. Certo perdeste o senso
Mas eu ardia em febre  a imaginar as sardas eclipsadas pelas vestes
Meu coração plebeu queria pegar sua mão, beijar sua boca, morrer por ela 

Anelise traçava letras perfeitas no caderno de caligrafia

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O divórcio

No início era só um tremor imperceptível da pele –
“Como quiseres” –, ali onde a carne é mais escura.
“O que tens?” – Nada. Sonhos leitosos
de abraços, mas na manhã seguinte
o outro parece diferente, estranhamente ossudo.
Mal-entendidos que cortam como facas. “Aquela vez em Roma” –
Isso eu não disse nunca. – Silêncio. Loucas palpitações
do coração, um tipo de ódio, estranho. – “Não se trata disso.”
Repetições. Com clareza radiante a certeza:
A partir de agora tudo é errado. Inodora e nítida
como uma foto de passaporte, essa pessoa desconhecida,
o copo de chá na mesa, os olhos fixos.
Não tem sentido, não tem sentido:
ladainha na cabeça, um acesso de náusea.
Fim das rixas. Devagar a sala
se enche de culpa até o teto.
A voz queixosa é alheia, apenas os sapatos
que caem ao chão com um estrondo, os sapatos não.
Na próxima vez, num restaurante vazio,
câmera lenta, migalhas de pão, fala-se de dinheiro.
Risos. A sobremesa tem sabor metálico.
Dois intocáveis. Lógica estridente.
“Não é tão grave assim.” Porém, à noite,
o rancor, a luta silenciosa, anônimos
como dois advogados ossudos, dois caranguejos grandes
na água. Enfim, o cansaço. Devagar
a crosta descasca. Uma nova tabacaria,
um novo endereço. Párias, terrivelmente aliviados.
Sombras que empalidecem. Este é o processo.
Este é o molho de chaves. Esta é a cicatriz.

Poemaço de Hans Magnus Enzensberger, publicado numa coletânea do autor que saiu com o título de Eu falo dos que não falam, pela Brasiliense e Instituto Goethe, em 1985, com tradução de Kurt Scharf e de nosso querido Armindo Trevisan. Pra quem puder ler em alemão, a coisa é ainda mais impressionante. Impossível resgatar, em português, a sonoridade de uma passagem como esta: “wie zwei knochige Advokaten, zwei grosse Krebse / im Wasser” (na tradução, “como dois advogados ossudos, dois caranguejos grandes / na água”).

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Maria da Glória

Maria da Glória ri
Eterna menina ri
Da nossa miséria ri
Para não chorar ri
Maria da Glória ri

 

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Livros de poesia

Disponibilizei mais dois livros de poesia em arquivo pdf: Alta tensão e Meus demônios cantam.

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Dublê de alma

Dublê de alma
penetro o inferno
de quem, a salvo,
meu verso lê.

Percorro o vale
das sombras e
da morte, e escapas
de novo inteiro.

Porém, cuidado:
vira esta página.
Ou o tiro sai
pela culatra.

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